Era uma vez um tigre…

Estávamos sentados no chão, durante uma roda de conversa com alunos da 6ª e 7ª classe, num colégio privado no bairro do Triunfo, em Maputo. Quando a sessão já estava para terminar, um menino de 11 ou 12 anos esgueirou-se entre os colegas para ficar mais próximo de mim. A conversa estava animada e o círculo era apertado; eu nem tinha dado conta da movimentação. Até que reparei num dedo erguido ali mesmo diante de mim.

– Como fazes para não ter vergonha? – perguntou ele em surdina.

Pedi-lhe que explicasse melhor:

– Vergonha de quê, meu lindo? 

– Vergonha de escrever histórias que algumas pessoas podem não gostar. Ou de dar entrevistas…

Pumba! Murro no estômago. Já devia saber: as melhores perguntas – as mais incómodas, as mais divertidas, insólitas ou profundas – vêm sempre das crianças.

Inspirei fundo e hesitei por momentos antes de responder em tom confessional.

– Sabes uma coisa? A verdade é que eu tenho vergonha. Apenas tento disfarçar…

Pareceu-me ver um sorriso tímido esboçar-se no rosto dele. 

Quando a roda dispersou, no momento das despedidas, ele aproximou-se com mais uma inquietação.

– Podes escrever uma história com o meu nome?

– Que bonito! Escreve aqui o teu nome para eu não me esquecer – e estendi-lhe a palma da mão.

Enquanto ele escrevia, fui acrescentando:

– Sabes, gostei muito da tua pergunta. É impossível escrever histórias que todos vão gostar. Mas isso não significa que devemos parar. Qual é a pessoa mais importante que tem de gostar?

– Sou eu? – respondeu com pouca certeza.

– Exactamente! – confirmei cheia de entusiasmo – E quem é que, se calhar, também vai gostar e ficar muito orgulhoso?

Aí respondeu sem qualquer sombra de dúvida.

– Os meus pais!

– Boa! – concordei com ele.

Então acrescentei:

– Olha, tive uma ideia! Porque é que não escreves tu uma história com o teu nome?

– É que não estou muito habituado ao português, dantes estava no ensino inglês.

– Então porque não escreves em inglês? 

Os olhos dele brilharam como se tivesse descoberto a pólvora.

– Posso escrever em inglês?

– Claro que sim! As histórias escrevem-se em qualquer língua. A primeira coisa que tens de fazer é contá-la. Depois é só passar para o papel. Como é que se começa uma história em inglês?

– Once upon a time…

– Exactamente! Once upon a time… – repeti eu, olhando para as letras desenhadas na palma da minha mão – Once upon a time, there was a tiger named Thando… 

Once upon a time, there was a tiger named Thando…

O rosto abriu-se num largo sorriso e Thando, o menino tímido com nome de tigre, conquistou a sua própria vergonha para me fazer um pedido genuíno.

– Posso ter o teu número?

Desatei-me a rir e pedi-lhe a caneta de volta. Ele estendeu a palma da mão e foi a minha vez de escrever. 

 

Cristiana Pereira

Jornalista/Escritora 


Ilustração: pixabay.com

Deixe uma resposta

Comments flagged as spam will not appear until reviewed.

P.S. Your email address will not be shared or published.